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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pingos - Guilherme Schultz Filho (Poema)


Em cada ronda da vida,
eu tive um pingo de lei.
Montado, sou como um rei,
pelo garbo e o entono.
Cavalo pra mim é um trono:
neste trono, eu me criei.

De piazito eu já encilhava
um peticinho faceiro,
que era cria de um oveiro
e de uma egüinha bragada:
era da cor da alvorada
o meu petiço luzeiro!

Rosado como as manhãs,
do pêlo da própria infância...
Mascando o freio com ânsia,
parece até que sorria...
Chamava-se “Fantasia”
e era a flor daquela estância.

Já mocito, o meu cavalo
era um ruano – ouro nas crinas! –
festejado pelas chinas
que o chamavam “Sedutor”...
Formava um jogo de cor
sob os reflexos da aurora
co’os cabrestilhos da espora
e os flecos do tirador.

Naqueles tempos de quebra, 
nos bolichos, ao domingo, 
sempre floreando meu pingo
todos me viram pachola,
com o laço a bate-cola
e virando balcão de gringo.

O meu cavalo de guerra
chamava-se “Liberdade”!
Chomico! Quanta saudade 
me alvorota o coração!
Era um mouro fanfarrão,
crioulo da própria marca
e eu ia como um monarca
na testa de um esquadrão.

Em uma carga das feias
(como aquela do Seival...)
o mesmo que um temporal
rolamos por um lançante
e até o próprio comandante
ficou olhando o meu bagual.

Homem feito e responsável,
o meu flete era um tostado,
tranco macio, bem domado
(eta pingo macanudo!),
desses que serve pra tudo,
segundo um velho ditado.

Mui amestrado na lida,
um andar de contra-dança;
de freio, era uma balança,
campeiro, solto de patas...
Gaúcho, mas sem bravatas
e o batizei de – “Confiança”.

O Cavalo que eu encilho
nesta quadra da existência,
dei-lhe o nome de – “Experiência”,
é um picaço de bom trote
e, levando por diante o lote,
rumbeio à Eterna Querência.

E, assim, vou descambando, 
ao tranco e sem escarcéu...
Sempre tapeado o chapéu,
por orgulho de gaúcho
e, se Deus me permite o luxo,
entro a cavalo no céu!



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