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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Relato do Enforcado - Aureliano de Figueiredo Pinto (Poema)


Tudo lhe vinha ao contrário.
Nadava conta a corrente.
Tudo o empurrava pra trás.
Tudo o fazia afundar.
Ás vezes desacor'çoava,
mas renascia a coragem.

E já agora, ultimamente,
o mundo desmoronava.
O mundo não era mundo,
era uma coisa enjoativa
que se suporta por vício.

Era um quarto de lua nova
e o vento norte ventava.
Vinha uma poeira nos olhos 
de sair água por nada.

Uma palavra qualquer 
sentiu que a fundo o feria.
Agarro mias fumo e palhas,
e, com um cabresto na mão,
ao mato se encaminhou:
- “buscar um pouco de lenha...”.

Olhou o angico mais alto,
com um galho para o perau.
Namorava o galho alto,
como se olhasse um sobrado 
que desejasse comprar.

Ia cortando mais fumo
e mais cigarro enrolando, 
largando cada tragada
de fumaceira gostosa,
das de fazer cerração.

Pensava que o mundo velho
já era um baile acabado
sem razão pra se ficar.
Namorava o galho alto,
como avaliando um sobrado
que pretendesse comprar.

Fechou um crioulo bem grande,
que botou atrás da orelha
e foi subindo no angico
com jeitos de gato bravo.

Montou no galho bem alto,
que dava para o perau.
Amarrou nele o cabresto,
pôs laçada no pescoço,
com o chapéu bem tapeado,
bem preso no barbicacho.
Acendeu o crioulão
e largou a fumaçada, 
das de fazer cerração...

Com o chapéu bem tapeado,
bem preso no barbicacho,
cerrou nos queixos o crioulo
e resvalou-se com jeito,
para ser estrangulado.

Quando chegou o delegado,
mais o escrivão e o doutor,
balanceava no perau,
como se o vento o rodasse
na dança sobre os abismos.

Firme o cigarro nos queixos,
e o chapéu velho, maroto,
quebrado como em fandango.

E no rápido velório, 
que corajudo haveria,
nem por Deus nem pela Virgem,
de contrariar o finado:
- querer tirar-se o cigarro,
querer sacar-lhe o sombreiro.

E entocou-se cova a dentro
com jeitão de malcriado:
- cigarrão preso nos queixos,
chapéu velho bem quebrado.
E a borla do barbicacho
- única flor sobre o peito.



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